A economia e o tempo de retorno
Em resumo: a energia dos painéis abate a sua conta, mas a conta não zera. A distribuidora continua cobrando um valor mínimo por mês e uma parte da tarifa chamada Fio B, e essa parte sobe a cada ano até 2029. A plataforma calcula a economia de cada mês com essas regras e soma, mês a mês, até alcançar o preço do sistema: esse é o tempo de retorno.
Esse tempo é uma estimativa. Algumas coisas que ficam fora da conta o deixam mais curto, e outras o deixam mais longo. Esta página explica tudo isso.
1. De onde vem a economia
Durante o dia, os painéis geram energia. O que a sua casa não usa naquela hora vai para a rede da distribuidora e vira crédito, em kWh. Esse crédito abate o consumo da sua conta, no mesmo mês ou nos seguintes, e vale por 60 meses (Lei nº 14.300/2022, art. 13).
O crédito abate a conta, mas não vira dinheiro. A distribuidora não paga pela energia que sobra. Por isso a plataforma dimensiona o sistema para o que a sua conta consegue abater, e não para gerar o máximo possível.
2. Por que a conta não zera
Três coisas continuam na conta mesmo com os painéis:
- O valor mínimo (custo de disponibilidade). Toda conta tem um mínimo, que paga a rede que continua à sua disposição. Ele equivale a 30 kWh na ligação monofásica, 50 kWh na bifásica e 100 kWh na trifásica (Resolução ANEEL nº 1.000/2021, art. 291).
- O Fio B sobre a energia que volta da rede como crédito (explicado na seção 3).
- Outras cobranças que não são energia, como a iluminação pública, a taxa de lixo, multas ou parcelamentos (seção 4).
Pela regra da ANEEL, a distribuidora cobra o maior valor entre o mínimo e o que você deve depois de usar os créditos (Resolução ANEEL nº 1.000/2021, arts. 290 e 655-I).
Dois exemplos dos casos de validação (com uma tarifa de teste de R$ 0,75/kWh e ligação bifásica, sem iluminação pública):
| Caso | Conta sem painéis | Conta estimada com painéis | O que sobrou na conta |
|---|---|---|---|
| Guaíra (PR), 300 kWh/mês | R$ 225,00 | R$ 38,62 | O Fio B sobre os 300 kWh compensados, que passa do mínimo de R$ 37,50 |
| Campinas (SP), 180 kWh/mês | R$ 135,00 | R$ 37,50 | O valor mínimo da ligação bifásica (50 kWh × R$ 0,75) |
3. O Fio B, explicado
O que é. A tarifa de energia tem várias partes. O Fio B é a parte que paga a própria rede da distribuidora. Nas palavras da Lei, são as componentes "relativas à remuneração dos ativos do serviço de distribuição, à quota de reintegração regulatória (depreciação) dos ativos de distribuição e ao custo de operação e manutenção do serviço de distribuição" (Lei nº 14.300/2022, art. 27).
Como é cobrado de quem tem painéis. Desde 2023, a Lei manda cobrar uma parte do Fio B sobre toda a energia compensada, ou seja, sobre a energia que volta da rede como crédito. Essa parte sobe a cada ano:
| Ano | Parte do Fio B cobrada |
|---|---|
| 2023 | 15% |
| 2024 | 30% |
| 2025 | 45% |
| 2026 | 60% |
| 2027 | 75% |
| 2028 | 90% |
| 2029 em diante | regra nova, ainda a ser definida pela ANEEL |
A partir de 2029, a Lei manda cobrar todas as partes da tarifa que não são o custo da energia (e não só o Fio B), com um desconto pelos benefícios que a geração traz à rede. Esse desconto ainda vai ser definido (Lei nº 14.300/2022, arts. 17 e 27): a ANEEL abriu a discussão em dezembro de 2025 (Tomada de Subsídios nº 23/2025), e ainda não há data definida para a regra final.
Quem paga assim: os sistemas novos. Quem já tinha sistema quando a Lei foi publicada (em janeiro de 2022), ou pediu a ligação até 12 meses depois, segue a regra antiga até o fim de 2045 (art. 26).
Qual valor de Fio B a plataforma usa:
- O valor da distribuidora que atende o seu município, tirado das tabelas oficiais da ANEEL (Dados Abertos, "Componentes Tarifárias"), sem impostos. A tela do resultado mostra qual distribuidora entrou na conta, qual foi o valor e até quando ele vale — cada distribuidora reajusta a tarifa uma vez por ano, em data própria.
- Como sabemos qual é a sua. A ANEEL publica quais conjuntos de unidades consumidoras existem em cada município e qual distribuidora atende cada conjunto. Cruzando as duas listas, 5.566 dos 5.571 municípios do país ficam identificados. Em 91% deles existe uma só distribuidora, e a plataforma usa o valor dela direto, sem perguntar nada.
- Quando o seu município tem mais de uma — são 481, quase todos em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Paraná, onde cooperativas dividem a área com a concessionária —, a plataforma pergunta qual é a sua na página inicial. O nome está na sua conta de luz. Se você não souber, ela usa a de maior Fio B entre as que atendem a sua cidade: é a que resulta na menor economia, para o resultado não prometer mais do que você pode ter.
- Quando nem isso é possível (14 municípios, atendidos por cooperativas cuja tarifa vigente ainda não foi republicada pela ANEEL), a plataforma volta ao valor da distribuidora da capital do estado e diz isso na tela.
- O que isso mudou. Até 01/10/2026 a plataforma usava o valor da distribuidora da capital para todo mundo. Medindo município a município, 823 passaram a usar um valor diferente — o da empresa que de fato os atende. Campinas, um dos casos de validação, é um deles: era atendida pela CPFL Paulista (R$ 0,2005/kWh) mas recebia o valor da distribuidora da capital de São Paulo (R$ 0,2121/kWh).
A subida e o tempo de retorno: preste atenção aqui. Como o percentual sobe todo ano, a economia de cada mês diminui até 2029. A plataforma leva isso em conta: ela soma a economia mês a mês, e cada mês usa o percentual do seu ano. Isso faz diferença. Nos cinco casos de validação, o retorno ficou até 25% mais longo do que pela conta simples, que divide o preço pela economia de hoje como se ela nunca mudasse. Foi mais longo onde o Fio B é mais caro, e igual onde a conta já fica no valor mínimo.
| Caso | Conta simples | Mês a mês (o que a plataforma mostra) |
|---|---|---|
| Bom Jesus da Lapa (BA) | 48,6 meses | 60,9 meses (+25%) |
| Cuiabá (MT) | 46,8 meses | 56,5 meses (+21%) |
| Guaíra (PR) | 49,1 meses | 54,8 meses (+12%) |
| Manaus (AM) | 38,0 meses | 40,9 meses (+8%) |
| Campinas (SP) | 67,6 meses | 67,6 meses (igual) |
Simulação em outubro de 2026, com a tarifa de teste de R$ 0,75/kWh: 60% até dezembro de 2026, 75% em 2027, 90% em 2028 e 100% de 2029 em diante. Os 100% são uma premissa provisória, porque a regra de 2029 ainda não está definida, e ela tende a cobrar mais que isso. O mês a mês também inclui o desgaste dos painéis (seção 6).
4. A sua tarifa: impostos, bandeira e iluminação pública
A plataforma calcula a sua tarifa dividindo o valor da conta pelo consumo da mesma conta. A vantagem é usar o preço que você paga, já com impostos (ICMS, PIS e Cofins) e bandeira tarifária, e não uma média do país. Mas isso tem quatro efeitos que você precisa conhecer:
- Impostos: a tarifa tem impostos, mas o Fio B da tabela da ANEEL não tem. Descontar um valor sem imposto de um valor com imposto deixa a economia um pouco otimista. Esse efeito não foi medido, porque o ICMS muda de estado para estado.
- Bandeira tarifária: a conta que você usou traz a bandeira daquele mês (verde, amarela ou vermelha), e a plataforma usa essa tarifa para todo o período. Se a conta for de um mês de bandeira vermelha, a economia sai maior; se for de bandeira verde, sai menor.
- Iluminação pública e outras cobranças: o total da conta pode incluir cobranças que não são energia: a contribuição de iluminação pública (cobrada pela prefeitura), a taxa de lixo, multas, juros ou parcelamentos. Os painéis não reduzem essas cobranças. Por isso o formulário tem o campo opcional Cobranças da conta que não são energia, no bloco “Deixar o resultado mais preciso”: o valor informado sai da conta antes do cálculo da sua tarifa. Se o campo ficar em branco, essas cobranças entram como se fossem energia, a economia sai otimista e a tela de resultado avisa. Em Manaus, por exemplo, a contribuição residencial era de R$ 47,91 por mês na faixa de 501 a 1.000 kWh (valor proposto para 2022). Com ela na conta e o campo em branco, o retorno do caso de Manaus cairia de 40,9 para 35,6 meses; com o campo preenchido, volta aos 40,9 meses.
- Conta de um mês de consumo muito baixo: se a conta que você usou é de um mês em que a casa consumiu menos que o mínimo da distribuidora (30, 50 ou 100 kWh, conforme o tipo de ligação), como num mês de férias, a conta cobrou o mínimo, e não o consumo. Nesse caso a plataforma divide o valor pelo mínimo, para a tarifa não sair inflada, e a tela de resultado avisa. O melhor é usar a conta de um mês de consumo normal.
5. A energia que você usa na hora
Parte da energia dos painéis é usada pela casa no mesmo momento em que é gerada, por exemplo a geladeira ligada ao meio-dia. Essa parte nem chega a ir para a rede e não paga Fio B. Num estudo com 86 consumidores, ela foi de 37% da geração, em média (Dilli e Brito, 2025).
A plataforma não sabe a que horas você usa energia, então trata toda a geração como se passasse pela rede. Com isso, a economia calculada fica menor que a real: aqui a plataforma erra para o lado seguro.
6. O tempo de retorno
A plataforma soma a economia mês a mês, a partir do mês da simulação, até ela alcançar o preço do sistema. A economia de cada mês muda com o ano por dois motivos: a parte do Fio B cobrada sobe até 2029 (seção 3), e os painéis perdem cerca de 0,5% de rendimento por ano (Pinho e Galdino, 2014). A tela do resultado mostra a economia de cada ano numa tabela, para você conferir.
- Exemplo (Guaíra, simulação em outubro de 2026): o sistema custa R$ 9.150,00. A economia é de R$ 186,38 por mês em 2026, R$ 176,73 em 2027, R$ 167,08 em 2028 e R$ 160,64 de 2029 em diante. Somando mês a mês, o sistema se paga em 54,8 meses, cerca de 4 anos e meio. Pela conta simples, R$ 9.150,00 ÷ R$ 186,38 = 49,1 meses: mais curto, porque supõe que a economia de 2026 se repete para sempre.
- O desgaste quase não muda o retorno, porque no começo o sistema costuma gerar um pouco mais do que a conta deixa abater. Ele pesa mais com os anos.
- Tempos acima de 25 anos não são mostrados, porque é o prazo da garantia de desempenho dos painéis. Nesse caso, a tela explica e mostra quanto a economia somaria em 25 anos.
O que fica fora da conta, e para que lado isso puxa:
| O que não entra | Efeito no retorno real |
|---|---|
| A regra do Fio B de 2029 em diante, ainda não definida (a plataforma usa 100% do Fio B, e a cobrança real tende a ser maior) | mais longo |
| Impostos, e as cobranças que não são energia quando o campo fica em branco (seção 4) | mais longo |
| Manutenção e troca de peças | mais longo |
| Reajuste da tarifa acima da inflação (a tarifa fica constante na conta) | mais curto |
| Energia usada na hora (seção 5) | mais curto |
| Juros (o valor do dinheiro no tempo) | a conta não considera, e por isso fica mais curta do que um cálculo com juros |
Como há efeitos para os dois lados, o tempo de retorno é uma estimativa, útil para comparar e para decidir se vale pedir orçamento, mas não uma garantia.
Como ele se compara com outras fontes: nos cinco casos testados, o retorno mês a mês ficou entre 3,4 e 5,6 anos (pela conta simples, que é a do artigo do TCC, entre 3,2 e 5,6 anos). Um estudo publicado calculou 4,57 anos para uma casa com 4,2 kWp, e três calculadoras gratuitas deram de 3 anos e 3 meses a 4 anos e 1 mês para a mesma casa (Costa et al., 2025). São tempos da mesma ordem de grandeza dos nossos, mas a comparação vale só como ordem de grandeza, porque os cenários são diferentes.
Nos próximos passos: a energia usada na hora; e, quando a ANEEL definir a regra de 2029 em diante, a economia somada em 25 anos, com a troca do inversor.